GTA V é um dos títulos mais aguardados do ano – chega dia 17 – e a hype em torno do game é de uma dimensão enorme. Nesta segunda-feira, a internet foi tomada pela notícia de que o jogo da Rockstar North seria o mais caro da história da indústria dos games, tendo custado cerca de US$ 267 milhões, considerando desenvolvimento e marketing.

Há alguns pontos que precisam ser esclarecidos e, para isso, vamos à origem da questão. Toda a história tem início nesta reportagem do jornal escocês The Scotsman com alguns funcionários da Rockstar North. Por que um jornal escocês? Porque é na capital da Escócia, Edimburgo, que fica esse escritório da Rockstar, responsável por produzir também GTA III, GTA IV, GTA: Vice City e GTA: San Andreas.

A reportagem cita alguns números, como o próprio orçamento (designado em libras esterlinas) e a expectativa de que 25 milhões de cópias sejam vendidas no primeiro ano de circulação do jogo, gerando cerca de estratosféricos US$ 1,57 bilhão. Diz, inclusive, que o orçamento o coloca lado a lado com as grandes produções de Hollywood.

Como é prática comum, alguns sites e portais repercutiram a notícia, afinal, trata-se de um dos maiores lançamentos do ano e toda e qualquer história sobre o assunto levará ao aumento da audiência, além de ser, de fato, uma história relevante. O problema é como essa repercussão acontece. Em algum momento, algum site tomou a cifra citada (os US$ 267 milhões) e a comparou a outros jogos e filmes. Quem deu início a isso? É difícil precisar devido à vastidão da internet e do volume de conteúdo nela publicado, mas o VG247, um dos sites que repercutiu o assunto, leva ao VR-Zone e ao WCCF Tech, por exemplo.

Todos esses sites apontam o The Scotsman como fonte primária, o que é bastante confiável, uma vez que foi um dos poucos veículos – se não o único – que foi atrás da Rockstar North para publicar algo sobre o GTA V de uma perspectiva diferente, abordando o game como um produto escocês que ganhou o mundo. Em nenhum momento, porém, o jornal afirma que trata-se do game mais caro da história, tampouco o compara a outros filmes ou descrimina quanto foi destinado ao marketing e qual a quantia usada no desenvolvimento. A reportagem diz apenas que o título “vai redefinir os parâmetros dos videogames quando for lançado” e que é uma das maiores franquias de entretenimento atualmente, segundo uma das fontes ouvidas.

Outros sites, que serviram de fontes para outros mais, se apropriaram da informação legítima do The Scotsman para criar uma nova notícia – esta, não tão clara, pois considera o orçamento inteiro e o coloca em paralelo ao de outras produções, sem mostrar também como a verba delas foi usada. Segundo os gráficos publicados nestes sites, GTA V, que definitivamente terá um mundo gigante, está à frente de filmes como A Origem, Os Vingadores e Avatar em termos de orçamento, atrás apenas de Piratas do Caribe: No Fim do Mundo.

A informação do custo total de GTA V é relevante, não importando qual seja essa quantia, e está claramente evidenciada na reportagem que deu início a tudo. Mas cravar o game como o mais caro da história requer um pouco mais de apuração, e não apenas uma comparação a outras produções cujo orçamento envolve um número diferente de variáveis completamente distintas. Sabe-se que a Rockstar está fazendo um grande trabalho de marketing para divulgar o jogo, e isso poderia representar uma fatia de dinheiro muito maior do que se imagina, tornando impossível calcular o valor do desenvolvimento propriamente dito, o que provavelmente conheceríamos somente se a Rockstar North de fato divulgasse a informação.

Pode ser que o game seja de fato o mais caro já produzido e ter se igualado a produções hollywoodianas, mas não há qualquer indício oficial que nos leve a essa conclusão além do número revelado pelos produtores, que não é conclusivo o bastante. Trata-se de um erro de interpretação, que levou a comparações inadequadas para evidenciar um dado relevante revelado pelo The Scotsman na tentativa de recriar uma notícia em busca de um “furo” de reportagem.

De forma alguma quero tecer críticas ao jogo, ao seu desenvolvimento, ao modo como a Rockstar divulga suas informações ou ao trabalho de quaisquer outros profissionais. Apenas alerto aos leitores que atentem às fontes utilizadas nas informações das notícias e que sempre leiam criticamente aquilo que chega via Twitter, Facebook ou mesmo está estampado em sites e portais. A regra vale não só para quem acompanha o blog ou a indústria de games, mas para todos os demais textos. Em tempos de internet, as informações são uma mercadoria barata e de fácil acesso que podem se transformar em algo completamente diferente do que era em sua origem em questão de minutos.

Em tempo: a aparente distorção tirou os holofotes dos escoceses, aqueles que trouxeram os dados à tona. Vale a pena ler a reportagem do The Scotsman, que tem um foco mais comportamental que gamer. Nela, os produtores falam como foi o processo de pesquisa cultural para reproduzir o ambiente californiano e como há influências escocesas no game, embora seja retratada uma parte dos Estados Unidos. Todo o crédito deve ser dado à equipe do jornal e, principalmente, ao repórter.

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